suco


Acende a vela que morre toda noite. Os pés muito fracos a sustentam até o banheiro. Ajeita o cabelo num coque, as mãos finas encaixam a dentadura. O espelho balançando no arame mostra o canto do olho escondido.

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!

O café de ontem, leva ao fogo e enche o copo de vidro; o pão ainda em cima da mesa. Engolia seco, a filha entrou. Já é hora, mamãe. Empresta o braço para andarem seguras, atravessam a soleira. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, na direção da cruz ao lado da foto dos rapazes.

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Véus pretos marcham quietos através da neblina. Na igreja, filhas seguram mães, noivas amparam sogras, irmãs choram entre as contas do terço. A Ave Maria murmurada, o Padre Nosso engasgado. Fecha os olhos.

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!



Escrito por mariana às 19:49
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Comunhão

Não conseguiu mentir o suspiro. Depois gemeu, para ser silêncio ao ler os olhos dele. Tinha abraçado sua cintura com as pernas e lambia as costas tateando o fim da barriga. Beijou atrás da orelha quando ele, boca mordida, deixou o pescoço cair, prazer.

Encontrou seios, tentava beijar o umbigo. Ela queria a testa, o nariz, os cabelos, o grito impossível que não precisava ser grito. Deixou as pernas cederem, se tocavam. Sorria e ele mordeu seu queixo, as mãos grandes de cada lado da barriga puxavam para mais perto. Soltaram-se carinhosos: ela beijava os ombros, agora curvou as costas e chegou, homens, no osso saliente da cintura. Quando ele riu, a barriga contraída ganhou mordida.

Ela apoiou a mão na parede e respiraram juntos. Escorreu o dedo pelos ossos da coluna dela, a unha ela apertou contra a coxa dele, tão próxima. O suor da barriga dele ficou nas costas dela quando os corpos, mais unidos, se separaram.

 

 

 



Escrito por mariana às 15:52
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Maracujá ou Paixão

Virou na esquina das damas da noite, que perfume, que perfume. Os muros altos das casas: amarelo, verde, cinza, azul. No fim, onde o vento encanava, folhas de palmeiras dedilhavam I'm in heaven.

Já tinha desenroscado três raios de sol do cabelo quando ouviu o tênis chapinhando na calçada, a tinta azul da escola de mergulho derretida em poças. Flores compridas marrons, transformadas em lesmas, grudaram na barra da calça.

Desistiu dos raios de sol, que escorriam nos ombros pelo caminho. Era macio e quis não lembrar do guarda-chuva que trazia na bolsa. Só notou a reverência das plantas, vento cima vento baixo, ao levantar os olhos preocupados com flores de tinta a óleo escorregadias.



Escrito por mariana às 07:25
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Bastonete

Tanto que, no domingo, comprou uma manteiga de cacau e desde então a protegia no bolso antes de sair.

            Não tinha elegância nem ocupava as mãos, além de cheirar amargo. Também não esquentava no frio. E a aplicação era um tanto vergonhosa – há sete ou oito anos se conformara com não saber fazer bico, e não caía bem para um moço daquele tamanho arreganhar grande os lábios e passar o batom em cada rugosidade.

            Mas notou progressos, a boca estava macia e com brilho, até. No entanto, elas voltaram, as aftas. Era esse seu maior arrependimento, não podia com aftas. Quando, aos quinze, leu no jornal que cigarro deixava as células da mucosa da boca com mais queratina, passou a achar razoável o preço da possibilidade de um câncer. Aos dezessete não ia mais à farmácia e gastava cada moedinha do anestésico com prazer em bastonetes de tabaco.

            Foram dez anos de tragadas intensas: o desenho dos aros de fumaça, a certeza de destruir aftas em potencial. Elas incomodavam e ele começou a fumar.

            Encontrava os não-fumantes que reclamavam daquilo de que os não-fumantes sempre reclamam. Tão normal que sem importância. Com os retoques se acostumaram, batom religiosamente sete vezes ao dia: depois de escovar os dentes, ao levantar da cama e se deitar de novo; no intervalo do café de manhã e à tarde; indo para o trabalho e voltando de lá; depois da sobremesa do almoço.

            A Regina que tinha notado mudança na cor da boca dele. Não era cor, foram ver, era textura. Ela quis dar um beijo e se contraiu toda, olhos bem fechados, rosto de azedo. Capa de queratina. Capa não, casca era o que parecia. Já bastante áspera, um quase couro. Foi na sexta. Na outra semana ele tinha a boca melada de cacau.

            Deixou de ser engraçado, nem caricato mais era; se tornou um estorvo. Regina não suportava. Enquanto durou a lembrança da casca queratinosa, o batom era um milagre. Virou capricho pouco mais tarde quando os resquícios daquele tempo eram uma boca levemente ressecada. Logo não era mais capricho, e Regina odeia manias.

            Não só a Regina, ele descobriu. No trabalho faziam perseguição velada: esconderam a manteiga de cacau muitas vezes, outro dia os homens combinaram de ir de boca pintada de cor de rosa, uma grande piada. Se esquecesse no carro ia buscar tão logo se dava conta, fosse no meio duma reunião, quando estava de pijama ou durante o almoço. Uma grande piada. Chamaram, escondido dele, de filho de cacau. Depois só filho.

            Regina comprou lenços de papel. Guardava na bolsa e usava para tirar o excesso de batom dele quando se encontravam. Daí beijava de cumprimento. Por três semanas ele tentou se livrar daquilo, só conseguiu quando ela usou chantagem. Passou a usar a língua, então. E os lábios ficaram vermelhos e gastaram-se. No lugar de boca, só aftas. Precisou se reconstruir, voltou a fumar.



Escrito por mariana às 10:07
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Dona Dima, vê aí se não tem como buscar café? Tem não, a Deusa tá de férias. Ô, Dima, faz lá pra gente... Que isso, rapaz, eu só limpo chão e mesa aqui, não faço café, não. E a gente fica sem, dona Dima? Ué, fica sem ou faz você mesmo, nunca vi gente que não sabe fazer café...

 

 

Funcionária da DIMA encontrada morta na tarde de ontem

 

     Os bombeiros localizaram nesta quarta-feira o corpo da funcionária da DIMA (Divisão de Meio Ambiente) Cleuza Rodrigues Soares, 49, vítima do desmoronamento do prédio da administração da Empresa Alô-Alô de Comunicação.
     A tragédia aconteceu na tarde de quinta-feira (14). O acidente vitimou menos da metade dos funcionários do prédio. Na hora do desabamento, quase todos tinham se dirigido ao restaurante da empresa.

     Três corpos já haviam sido localizados: do porteiro José Edvaldo Goiano, 38, do bombeiro Eduardo Pires Silva, 32, e do técnico de computação Cláudio Bento Paulino, 25.





Escrito por mariana às 10:32
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Ou isto ou aquilo

Ali na esquina, o senhor que passou correndo de bermuda justa secou o rosto com a toalha pendurada na cintura. A mulher de saia escura e boca franzida olhou o relógio, os dois lados da rua e voltou pelo caminho por onde veio. A moça caminhava de passo apertado mas parou e ficou na chuva. O garoto não desgruda do livro que trazia aberto, tropeçou no calçamento torto. A moça segurando a orelha brecou de repente, fechou os olhos e deu meia volta. A senhora punha um pé na frente do outro devagar.

 

Cristiano tinha esquecido o uniforme da academia em casa, pediu no hotel uma bermuda que servisse e caminhou os 5 km diários entre o povo recifense. Daniele cansou de esperar Leonardo e entrou sozinha no cinema. Antes de entregar o bilhete, sussurrou um nunca mais que poucos ouviram, ainda bem, sabia que não ia cumprir. Carolina decidia se o Pedro merecia uma segunda chance, ainda não tinha se acostumado a dormir sem falar com ele no telefone. Chorou um pouco, ninguém percebeu na chuva. O vestibular era em duas semanas e faltavam quatro livros; se Bruno lesse no ônibus, no almoço, enquanto fosse pro cursinho e três horas antes de dormir, no ritmo de um minuto por página, talvez desse tempo. Gabriela voltava agora da acupuntura, a dor nas costas até que tinha passado. Virou para o corredor do trabalho e sentiu uma pontada. A agulha devia ter saído. Dona Esmeralda ainda não tinha se recuperado do tombo de quinta à noite. A bacia estava doendo.

 

Se o médico falou que é bom, tem que fazer. O short de quando jogava vôlei, a toalha pra secar o rosto – todo atleta seca com toalha-, polar e jamais caminhar pra fazer efeito mais rápido. Helena se perdia invariavelmente. Já tinha inventado uma técnica pra disfarçar, ninguém percebia que ela era desorientada: olhava pro relógio, depois para os dois lados da rua, como se procurasse alguém atrasado. Então fazia o caminho certo. Um calor de repente, subiu assim do nada. Sorte que chovia, deu pra parar e se refrescar ali mesmo. Fábio não gostava de ler. Desde pequeno evitava os livros e os pais nem aí. Na sexta série, a professora falou do Caso dos Dez Negrinhos e o menino desembestou a engolir Agatha Christie. Brincos eram a mania de Cláudia. Tinha quatro em cada orelha e dois piercings na esquerda, em cima. Na feirinha do centro achou um modelo diferente, com penas, quis usar só ele. Dormiu na casa do namorado e na manhã seguinte esqueceu que tinha deixado os outros três furos sem nada. Dois pra lá, dois pra cá de salto alto e Clarice mal punha os pés no chão no outro dia.

Escrito por mariana às 17:36
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Trecho de uma coisa que eu escrevi prum concurso

Tanto que, no domingo, comprou uma manteiga de cacau e desde então a protegia no bolso antes de sair.

            Não tinha elegância nem ocupava as mãos, além de cheirar amargo. Também não esquentava no frio. E a aplicação era um tanto vergonhosa – há sete ou oito anos se conformara com não saber fazer bico, e não caía bem para um moço daquele tamanho arreganhar grande os lábios e passar o batom em cada rugosidade.

            Mas notou progressos, a boca estava macia e com brilho, até. No entanto, elas voltaram, as aftas. Era esse seu maior arrependimento, não podia com aftas. Quando, aos quinze, leu no jornal que cigarro deixava as células da mucosa da boca com mais queratina, passou a achar razoável o preço da possibilidade de um câncer. Aos dezessete não ia mais à farmácia e gastava cada moedinha do anestésico com prazer em bastonetes de tabaco.

    



Escrito por mariana às 22:00
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Derrete

O coque no alto da cabeça se desfez quando ela abaixou os braços. Continuava de olhos fechados. A camiseta tinha subido, agora tentava se desenroscar dos seios. Faixa de barriga aparecendo. Ela sabia que eu estava olhando. Sorriu, eu pisquei. Então usava só a calcinha de renda tão branca, contraste na pele salgada.

Escrito por mariana às 19:51
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Companhia

As pontas dos dedos mexendo na água. Olho o céu, tão azul, tão azul. A grama ainda um pouco molhada do orvalho. Uma flor cor de rosa perto do nariz, perfume de fim de tarde. Vento no ouvido.
Água, céu e flor não pensam. É isso.



Escrito por mariana às 23:47
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Confeitaria

Pode tirar um pouco dos lados, acho que fica melhor.
Aumenta dois dedinhos na altura.
Enche aqui, ó. Aí tá bom, senão fica grande demais.
Dá pra ser liso em vez de crespo? Não tenho paciência pra secador...
E pêlos, tira os pêlos, odeio pêlos.



Escrito por mariana às 13:38
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Sentou no muro do terraço, cruzou os braços nos joelhos e ficou esperando o pombo correio chegar.
Demorou quinze semanas.
Chegou com uma mensagem de adeus.

 



Escrito por mariana às 02:30
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Vontade de nem sei

Abriu os olhos e fechou rápido, ainda não se queria de volta. Mas era tarde, tinha visto a luz que entrava pela janela mal fechada, agora só amanhã.
A barba de algumas semanas já, a falta de ânimo para se incomodar com ela. Unhas compridas, também preciso cortar.
Ligou a televisão, terminou o resto de soda de ontem. Roeu as unhas, um problema a menos.
Duas barras de cereal, três livros começados. Não adiantou mais nenhuma página, nem entendeu um parágrafo qualquer deles.
Achou música mais interessante, deitou e chorou.



Escrito por mariana às 01:31
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Ainda era noite, ela sentou na caminha e segurou a fada na palma da mão direita. Era a única luz que transformava o quarto todo em cor de rosa. Desceu com cuidado para o chão, colocou a fadinha na almofada. Sentou cruzando as perninhas e ficou olhando. Depois de algum tempo começou a rir das estripulias daquela menina de asas, bem pequenininha, riu tão alto que acordou a mãe. Ela entrou no quarto, bateu a mão no interruptor, e tudo ficou cor de madeira clara.
-Liza, que susto. O que você está fazendo aí no chão, filhinha? Vem deitar, vem.
Deitou, a mãe apagou a luz, e ficou tudo escuro.



Escrito por mariana às 13:25
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Dez e meia quando tocou a campainha. Abri o olho, Valéria do outro lado da porta. Ajeitei o cabelo, fazia tanto tempo, mais de cinco anos.
-Bom dia, Pedro.
Apontou a cabeça para baixo, olhei naquela direção.
Um menino com bolas de gude no lugar dos olhos sorria para mim, um papel na mão.
-Feliz dia dos pais.
Peguei o desenho dele, três pessoas, a do meio pequena, de mãos dadas no giz de cera.
Meu atestado de culpa.



Escrito por mariana às 11:15
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Podia passar no supermercado e procurar morangos, mas a certeza de que eles estariam lá – ontem estavam – era amedrontadora. Decidira há muito tempo não ter vontade de os querer e se deixar surpreender ao descobri-los pelo perfume. Combinou por fim de ir mas não passar perto da prateleira deles. Antes de pagar, desculpou-se olhando o preço da uva e espiou os morangos. Ali, nem sabia direito se muito vermelhos porque desviou logo, fingindo não ter notado.

Escrito por mariana às 15:58
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Há três horas ou três décadas o esperava.
Ele chegou, estendeu a mão, conversaram sobre a exposição de fotos que fariam juntos.
Depois de dois cafés e duas águas, ele se levantou e foi cuidar da esposa que se recuperava do nascimento do segundo filho.

Escrito por mariana às 18:31
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1993

Sentadas lado a lado, se espiam. Uma tem cabelo comprido em V, a outra carrega os cadernos presos num elástico preto.
Cai a agenda dela no chão, no pé da outra. O banco do ônibus apertado, é a outra que se abaixa e pega.
Repara que tem clipes coloridos. Uma foto ainda estava no chão, três moços sorrindo.
-Você pega...?
-Claro, não tinha visto.
Ela sorri e abre a agenda em março. Prende os moços no clipes verde.
-Meu irmão.
-Ah, tá.

Dez minutos depois, uma desce. A outra vê quando ela olha pra trás. Mais dois sorrisos.



Escrito por mariana às 13:34
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De príncipes e princesas

O casamento real chegara ao fim. Príncipe pegou princesa no colo e a carregou até o quarto de núpcias, não antes sem parar a cada metro no corredor e na escada para dar beijinhos e descansar as pernas.
Não pôde despi-la: os botões do vestido eram muitos e as amas se encarregaram de ajudar. Também não tirou o véu, não sabia desenroscar grampos. Esperou que a nova esposa se deitasse depois do banho de uma hora e foi vomitar. O vinho do sogro era de péssima qualidade. Quando voltou, ela dormia. Linda, os cabelos ainda um pouco duros do laquê espalhados em cima de seu travesseiro, a coberta toda para si, a respiração pesada. Podia chamar de ronco na primeira noite da lua de mel?
Acordaram cedo, as amas revelavam o mundo para além do dossel. Dia chuvoso. O rímel da princesa tinha borrado um pouco, o príncipe mal podia abrir os olhos de tanta dor de cabeça.



Escrito por mariana às 11:09
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São Paulo, 15 de agosto de 2002.

Dobrou as folhas em três, reforçando o vinco.

Eu também quero.

Guardou no envelope e passou dois pontinhos de cola.

Da sua Isabela.

Deixou na lixeira antes de atravessar a rua.



Escrito por mariana às 10:54
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Propaganda de margarina

Estacionou, guardou a chave no bolso e deu a volta por trás da casa. Suco de limão, beijo no filho, deitou na grama. Apoiou a cabeça nos braços para ver as nuvens. Em seguida veio o menino e colocou a cabecinha na barriga. Cruzou uma perna no joelho da outra e pediu histórias.
Pai, por que o céu é azul?
Lago é água parada, e rio é água que mexe, né?
Como chama aquele peixe de espinho que não me espinhou quando a gente foi pescar?
A gente pode comer mexerica hoje?

Escrito por mariana às 01:04
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Pode ser que, entreabertos, meus lábios de leve tremessem por ti

Nus, e a cama ao lado da janela.
Está escuro mas o contorno da barriga dela aparece, e os braços dele. 
Beija os dedos. Respira a nuca.
 
 
(20/10/03 - editado)


Escrito por mariana às 03:04
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Pára o carro.
Breque.
...
Eu te amo.
...
...
Como assim, me ama?...
Eu quero um pouco de você para mim.
Silêncio
Beijo nos olhos.
Chaves, acelerador, velocidade

(10/09/03 - editado)



Escrito por mariana às 02:52
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Os pés muito fracos a sustentam até o banheiro. Ajeita o cabelo num coque. O espelho balançando no arame mostra um pedaço de olho escondido. As mãos finas encaixam a dentadura.

(...)

Empresta o braço para andarem seguras, atravessam a soleira. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, na direção da cruz ao lado da foto dos rapazes.

(...)

Pequeno desespero no coraçãozinho, eles estavam de volta. Se curva um pouco mais para andar rápido. Cozinha, banheiro, ninguém. O coque solto, as mãos tremiam. Senta cansada da excitação.

(...)

Os bancos vazios e o peito mais um pouco apertado. Do alto da rua, pode enxergar o cais. As pernas fraquejam quando vê um navio e o movimento de véus escuros acenando para o mar.

(...)

Não é possível reconhecer ninguém, mas as mulheres, remoçadas, apontam, gritam, algumas choram. Por fim o navio atraca.

(...)

A noite cuida do resto.

 

Logo esses trechos precisam fazer sentido.



Escrito por mariana às 00:18
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De uns tempos pra cá, venho sentindo ódio desse blog.

Não é do blog, claro, é de não saber escrever nele.



Escrito por mariana às 20:08
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Não há de ser nada

Estava criando caso.
Virou para o lado, não dormiu.



Escrito por mariana às 13:48
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"Quem poderia fotografar, registrar, tatear o instante em que algo se rompe entre duas pessoas? Quando aconteceu? De noite, enquanto dormíamos? No almoço, enquanto comíamos? [...] O que posso fazer agora? Que refletor devo acender para encontrar nessa escuridão, nessa trama, aquele momento único, aquele milésimo de segundo em que algo cessa entre duas pessoas?"
Trecho do romance "Divórcio em Buda", do húngaro Sándor Márai. Tirado do blog do Guilherme, www.oguardalivros.blogger.com.br

-Eu lembro bem, foi quando você recebeu aquele telefonema. Nós estávamos juntos na sala, vendo Jornal Nacional, e o telefone tocou. Você estava de sobressalto havia uma semana, mas pensava que eu não percebia. Quando tocou, você resmungou algumas palavras, algo que mostrasse para mim que estava irritada, mas correu e atendeu antes do terceiro toque. Você estava ansiosa. Apontou para a televisão e foi para o quarto, onde eu não podia te ouvir. Não consegui mais prestar atenção nas notícias, mas também não escutava o que você estava conversando. Quando voltou, disse que era a Vera. Queria te encontrar no outro dia. Só depois eu soube que a Vera estava viajando.

-A Carla era bastante nervosa, eu estava do lado dela quando os problemas estouravam e, nossa, ainda bem que estava, ou ela, sei lá, surtava. Como no dia em que ela descobriu que o namorado mentia para ela. Não era nada grave, não chegava a ser traição, mas mentia. Antes o namorado também estava do lado dela, ele segurava uma barra maior que a minha. A gente saía juntos, nós três. Uma vez ela foi no banheiro, porque estava irritada com o shoyo que molhou a blusa dela, e o nabo que o garçom tinha trazido não estava adiantando. Ficamos nós dois na mesa. Ele começou a reclamar dela. Foi aí que eu também falei. Ele me entendia.

-Sempre muito legal comigo, a Marisa. A gente se divertia pra caramba, ela era inteligente... Só que faltava, sabe? Ela não era gostosa. Não era um grande problema, afinal, mulher gostosa mesmo não ía dar bola pra mim. Mas ela tinha peitos grandes demais. Quando eu conto isso para as pessoas, elas riem de mim, afinal, é bom ter mulher com peito grande. Mas os dela eram enormes. A gente foi para a praia no Carnaval, e eu conheci a prima dela, coitada, moça doente. Tinha acabado de se recuperar de anorexia. Peitinhos desse tamanhinho. Linda.

 



Escrito por mariana às 19:26
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Nas aulas de língua estrangeira era assim, precisava usar com freqüência as palavras que aprendia.

Decidiu eleger a palavra do dia e encaixa-lá nas conversas.

Hoje(abre o dicionário, fecha os olhos e aponta para uma), gaifona.

gaifona s.f gesticulação cômica; gaifonice, macaquice, trejeito; visagem, careta



Escrito por mariana às 13:18
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Amélie Poulain

Uma moça de camiseta verde limão, andando pelo supermercado com um carrinho lotado de flores coloridas.
Vontade de sorrir para ela.



Escrito por mariana às 16:55
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Demorou para levantar, ainda era cedo. Colocou calça de moletom e a blusa mais confortável. Suco de uva e bolachinhas, sentou na frente do computador. Pagou as contas do banco, mandou emails para os amigo distantes, cartões virtuais.

Amarrou rabo de cavalo bem alto, lavou o rosto mais uma vez e foi para a rua. Correu três quilômetros, parou na floricultura. Girassóis ou lírios? Lírios, menos pomposos.

Tomou banho, almoçou. Filme deitada no sofá, a risada gostosa de Charlotte-Scarlett, chocolate, incenso de mel.

 

Tudo que escrevo parece, para mim, um pequeno laboratório de criação de personagens. Muitos sem conflito no momento em que aparecem. Penso que são fotos, às vezes. Todos curtos. Continuo porque me faz bem, mas não vejo grande valor.



Escrito por mariana às 10:20
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Sentou no piano para exercícios. Fazia dois dias que ela tinha ido. Não conseguiu tocar no ritmo, esqueceu algumas notas. Jogou longe o caderno de partituras. Passou a mão no rosto, barba crescida.

Levantou e buscou um copo de leite. Deixou perto do teclado, cruzou ali os braços e se apoiou neles. Tentava chorar, imaginando suas próximas semanas.

Quis ligar mesmo sabendo atrapalhar o sono dela, que estava em outro fuso horário. Discou os primeiros números, depois desistiu. Não ía adiantar descobrir como ela estava. E seria pior se estivesse feliz.



Escrito por mariana às 18:13
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O tempo não pára

Cachecol por cima da malha, enroscando de leve no brinco comprido. Andou dois quarteirões e chegou na avenida principal, mais duas ruas e estava na praça. Tinha lavado o cabelo para tirar o cheiro de óleo do restaurante da mãe - passara a tarde ajudando porque tinham vindo muitos turistas apesar do frio.
Deu uma volta na praça, comprou uma latinha de cerveja no bar mais cheio, sentou em um banco. Via as pessoas passarem. Carros com neon, alguns com música alta. Moças rebolando. Garotos aprendendo a fumar. Menina de coturno, pulseira de espetos, lápis forte nos olhos. Casais procurando o canto menos iluminado.
Nada daquilo importava. No entanto, era viver.

Escrito por mariana às 21:59
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Kaleidoscope eyes

Levantou do banco um pouco zonza, como se faltasse sangue na cabeça ou coragem no corpo para ir em frente. Depois de alguns passos, o reflexo na vitrine de móveis, estava bonita, até. Cabelo mais liso que o normal, rosto um pouco macilento, é verdade – tinha emagrecido na última semana, combinação de falta de sono e de fome. Os olhos não chegou a ver, estava confusa demais para prestar atenção nos detalhes. Andou até a banca de jornais e comprou uma cruzadinha, precisava de palavras, parecia ter perdido todas as suas. Entrou no shopping e sentou no café. A mocinha veio atender, só pediu uma água porque achou chato demais não comprar nada. Estava lá por causa da música. Já era fim da tarde e o lugar estava começando a encher. No criptograma, um moço pediu para sentar com ela. Pediu soda e quiche de espinafre, trazia um livro.

-Gosto da música daqui.

Ela parou no meio do erre e olhou para ele. Sorriu.

-Ah, você também?

-Eles tocam música boa, mesmo.

-É... Sentei aqui por causa da música.

-Eu também. O quiche nem é tão bom, sabe...

Silêncio de novo. Ela continuou o erre, ele abriu o livro em alguma página e começou a ler. Depois de dois ou três parágrafos, riu.

-Que foi?

-Acabei de ver o nome do autor do meu livro na sua palavra cruzada.

-Onde?

-Aqui, ó, Paulo Coelho.

-Ah, você está lendo Paulo Coelho?

-É, você gosta?

-Bastante...

-Já leu esse?

-Esse não, é bom?

-Tô gostando. Fala de coincidências.

-Não existem coincidências, é tudo destino... Deve ser o que ele fala.

-É mais ou menos isso.

-Por isso que gosto dele.

-É...

Silêncio de novo, ela escreveu Paulo Coelho no espaço e ele continuo lendo. Terminou o quiche.

-Quer um gole?

-Não, obrigada, nem tomei minha água...

-Tá.

Já estava ficando tarde, a cruzadinha dava dor de cabeça, o moço querendo conversar.

-Acho que eu já vou, tá meio tarde pra mim.

Olhou de verdade para ele, então. Já tinha notado que não era feio, parecia bonzinho. Ele olhou de volta e sorriu. Dentes certinhos.

-Ah, tá bom. Prazer.

Estendeu a mão. Ela estendeu de volta. Os olhos se mexiam, agora. Estavam fixos, mas diziam alguma coisa. Eram os mesmos olhos castanhos escuros de antes, mas tinham um moço atrás deles. Desviou.

-Tchau, então.

 

(sem revisão e edição, por enquanto)



Escrito por mariana às 21:54
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Mary Jane

Deitados.
Ela virada para cima, quase fechando os olhos, ele de lado acariciando o cabelo vermelho dela. Ela não desapareceria apesar do escuro.
-Sabe que te amo?
Ela entorta bem pouco a cabeça, encontra os olhos verdes que pedem. Sorri. Volta a estar como antes.
-Dá um beijo.
Ela levanta, apóia o corpo no cotovelo, inclina. Antes de tocar os lábios na boca dele, fecha os olhos, e pode beijar quem quiser.
Bocas, línguas, saliva.



Escrito por mariana às 13:25
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Sentados no banco da praia, olhando o mar que oscilava entre tentar tocá-los ou desistir do que sabia que não aconteceria. A noite não tinha lua e estava um pouco fria. Ele abaixou a cabeça, ela fingiu não notar.

-Está gostando?

-Seria muito romântico se não fôssemos nós dois.



Escrito por mariana às 15:59
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E foi o princípio do fim (ou para André)

e deitou chorando na cama, correu para o quarto, Bateu a porta de casa.

-O pouco costumava bastar.

-Você sabe que é pouco para o que eu quero.

foi então que ela se apoiou na parede, Eu não quero conversar. Ficaram se olhando por alguns minutos. o que fazer agora, Caroline na sua porta, indiferente.

não estava esperando ninguém àquela hora, Lavou o rosto antes de atender a campainha.

 



Escrito por mariana às 13:58
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E a vida não é um romance que termina antes da morte dos personagens.

O felizes para sempre não é garantido.



Escrito por mariana às 13:52
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Quieta a princípio, o que é que tinha? Abriu todas as caixas velhas, não encontrou bagunça alguma, nenhum excesso, nem confusão. Porra, por quê?
Na falta do motivo, precisa achar a justificativa.



Escrito por mariana às 17:46
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*e desde então não consigo mais escrever uma linha*



Escrito por mariana às 00:42
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MULHERES BUSCAM SAÚDE NO CONSUMO DE SUCOS

A Wessanen do Brasil, detentora da marca Milani, realizou uma pesquisa recente que revela o que as mulheres são as maiores consumidoras de sucos concentrados. Preferem o suco como bebida pelo fato de ser saudável, fazendo bem à saúde, ter vitaminas, valor nutritivo e ser feito com fruta natural, preservando seu sabor. Tudo isso traz o bem-estar emocional. As preocupações da geração “pós-refrigerantes” são de complementar a alimentação com o suco, compensando hábitos de fast-food, agregando maior valor nutricional e também cuidando para uma melhor alimentação e saúde dos filhos. A mulher objetiva ainda cuidar do corpo e da saúde, daí a tendência a incrementar o consumo de suco e controlar ou evitar o uso de refrigerante.
(da assessoria da Milani)

Escrito por mariana às 21:42
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Eu queria ser triste

Eu achava mesmo que era feliz antes de ter uma árvore da felicidade.


Se é verdade que a felicidade dura o mesmo que a plantinha, e se eu conheço minha falta de habilidade com coisas vivas, por que eu comprei uma árvore da felicidade?



Escrito por mariana às 02:28
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Na porta da locadora, há quarenta minutos, lendo a revistinha de lançamentos e esperando chegar o filme que ele nunca consegue levar para casa. Passa a moça segurando o cachorrinho pela coleira rosa choque. Linda, cabelo amarelo meio curto, saia jeans, all star, blusa de algodão, manga comprida. Segura pra mim, preciso devolver umas fitas?... Tá. Claro.
Ela entra e ele fica segurando o vira-latinha marrom. Passa um senhor com o filme que ele quer, entra na loja. Preciso entrar, preciso entrar... Maldito cachorro. Maldito. Vem logo, moça, vem logo. Vai, vai... Rápido... Saem a moça e um casal, ela agradece, ele nem olha se o sorriso é bonito ou não, corre para o atendente que desvia os olhos sem graça. Se você correr pode tentar convencer o casal a desistir da sua fita...



Escrito por mariana às 14:00
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Perna para fora, equilibra o corpo no salto e empilha na mão esquerda o celular, os documentos xerocados juntos em um clipe e a chave. Tranca o carro, alça da mochila entre os dentes, aperta o botão do alarme – o centro é um perigo.

(



Escrito por mariana às 00:20
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LÁBIOS

...

(RESPIRO VOCÊ)



Escrito por mariana às 18:50
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Subiu correndo as escadas de emergência, abriu a porta corta-fogo e a de vidro. Desviou das toalhas estendidas no chão, as moças de biquini em cima delas...

Escalou o muro que impedia as crianças de verem o outro lado, o vazio coberto pelo azul.

Respirou fundo. Naquela altura o vento era mais forte, balançava a camisetinha de algodão que ela vestia. O ar quase ensurdecedor. Quando olharam para trás e viram a moça meio inclinada para o ..., de olhos fechados, braços grudados ao corpo, entraram em desespero. Não pula. Não pula.

Ela existia separado, gritava para si mesma.

Tomou mais ar. Abriu os olhos, viu o infinito. Todos ouviram o grito. 

Desceu do muro, começou a rir. Alívio.



Escrito por mariana às 00:09
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"Pírulas"

No ônibus: - E aí, suas bactérias cresceram?

***

Do Fran's café, andando pela avenida, a árvore (grande, raízes rebeladas contra a calçada) que fica no fim da bifurcação do caminho para casa está a 373 passos. O trajeto que eu pensava ser o mais curto, pela ruazinha residencial sem carros, ônibus ou joggers, consome 396 passos.

***

O melhor adiamento é tomar banho no escuro, com duas ou três velas (mal) iluminando tudo, incenso, música, xampu de flores, esponja vegetal e sabonete líquido.

***

Cachorros peludinhos correndo em direção ao dono são lindos.

***

Jamais entrevistem pessoas que pensam. Conselho de quem não sabe mais separar jornalismo de literatura, e tudo isso da vida particular.



Escrito por mariana às 21:07
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Às quinze para as sete acordou sem despertador nem nada, era só o sonho que tinha chegado ao fim, o letreiro com os créditos já tinha passado e não havia mais o que fazer de olhos fechados. Levou as mãos direto para o rosto, tirou o sono solidificado dos cílios e se espreguiçou. Não tinha relógio no quarto, imaginou ser tarde por estar tão descansada.

Levantou e abriu a janela, ar com cheiro e fresco. O sol ainda estava fraquinho, nossa, que horas são? Procurou o celular dentro da gaveta, ligou, nem sete horas. O que as pessoas fazem quando acordam cedo?

Foi tirando o pijama no caminho para a banheira. Levou o rádio para cima da pia, cd da Ana Carolina. Quem sabe isso passa sendo eu tão inconstante. Meia hora de imersão, esfregando a esponja diversas vezes em cada braço, cada perna, a barriga, os seios... Cantava apenas alguns versos, quase feliz, quase esquecendo do que ainda existia.

Deixou o cabelo molhado para secar com o vento, se trocou na frente da janela, nua para as montanhas e as árvores. Não lembrava que aqui era tão bonito. Calça de moletom, regata verde, tênis sem meia. Desceu as escadas que isolavam seu quarto do resto da casa e encontrou a bagunça do jantar da noite anterior na mesa. Nada na geladeira. Tirou do armário chá light com pêssego, misturou o pozinho e encheu um copo grande. Bolacha água e sal.

Sentada na calçada. O jornal do vizinho acumulado diante da porta, devia estar viajando. Hm, que mal há? Na capa, Brizola. Fashion Week, mortos e feridos, Ronaldo e Cicarelli, polícia... Não vale a pena.

Encostou no pilar da garagem, adormeceu. De volta para a realidade.



Escrito por mariana às 10:49
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Saía todo fim de semana para pescar e sempre voltava sem nada. Tinha dó dos bichinhos, tão gelados, viscosos, só faltava terem boca toda estrupiada. Por isso tirava a fisga do anzol antes de colocar a minhoca - e viva, que é mais saborosa - e passava a tarde de sábado segurando o bambu, coçando a nuca, pernas esticadas e calcanhar na água, se era verão. Quando o sol começava a desaparecer, levantava, tirava os carrapichos que tinham grudado e ía para casa, mais calmo.

Escrito por mariana às 00:10
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Chegou em casa e ligou a música. Estava feliz, e nem sabia dizer por quê. Talvez soubesse, mas essas coisas não se fala por aí. Pegou a irmã no colo e contou para ela tudo que tinha acontecido, a festa, o que ele tinha dito, o beijo... A outra olhava, sorria. Tinha 3 anos, o que podia entender daquilo?

Deixou a irmã no quarto e foi comer alguma coisa, não importa a hora, ela faria o que tinha vontade de fazer. E dane-se o resto. Gelatina, miojo, café, ovo, coca-cola, nessa ordem. Passou mal em seguida, e jurava que não era por causa da cerveja. Tá, a gente acredita.

Foi até o quarto, desligou a música e deitou. Teria sonhos ótimos, não fosse o vômito de cinco minutos antes. Não fosse o beijo, de poucas horas antes. Não fosse...



Escrito por mariana às 11:05
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Narciso

O cúmulo ou o limite: apaixonar-se por alguém pelo que ele tem igual a você - apaixonar-se por si mesmo.

Escrito por mariana às 10:30
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Ficou bem bobinho isso aí de baixo. Saiu sem querer.

Juro que estou tentando ser disciplinada e revisar o que escrevo, mas isso não funciona com esses trechos de qualquer coisa que eu publico aqui.

*crise: preciso escrever com começo, meio e fim*



Escrito por mariana às 23:39
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Suco? É, suco. o significante mais próximo do significado. Pense no som. Pense no suco caindo. De uva, de preferência. Suco. Suco. Suco.



Mariana Delfini, quase jornalista, gosta bastante de escrever.







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