Conto (segunda parte) - (ainda sem título)
Levantou às sete no outro dia, decidido a comprar os últimos exemplares do mês. Então não entraria mais num sebo até ter lido todos, era mesmo uma forma de se disciplinar. Vestiu short e camiseta e pegou o primeiro ônibus em direção à Paulista. Todos já o conheciam, era o moço estranho que compra muitos livros de uma vez só e depois some.
Alguma coisa nova? Nova, aqui, só a atendente. Clara sorriu, muito prazer, em que posso ajudá-lo? Quero saber quais chegaram há pouco tempo. Esses, os que ainda não estão na prateleira.
Sentou no chão e passou a examinar os títulos. Cruz e Souza, Lya Luft, Paulo Coelho, Euclides da Cunha... Escolheu três, certificou-se de que tinham os nomes dos antigos donos e foi pra casa.
Na mesa da cozinha, as folhas de sulfite, a caneta azul e os livros novos-velhos. O primeiro, Drummond, Alberto Domingues. Desenhou senhor de meia idade, talvez uns cinqüenta anos. Calça marrom, sempre marrom, e camisa meio amassada. Abre a mala bege, meio destruída, coloca tudo que tirou da prateleira dentro e leva até a porta. Na outra mala cor de vinho coloca algumas roupas, as menos essenciais, e a deposita ao lado da bege. Pega as duas e leva uma para o sebo, a outra para o brechó. Sai de viagem amanhã, para sempre em Buenos Aires. Chega no sebo e vende os livros que não farão falta. Olha o Drummond com mais demora, pensa, repensa, entrega para a atendente nova – Clara o nome dela, né? -, sorri, Esse aí já me deu dor de cabeça, mas é ruinzinho, pode ficar. Abaixa, pega a mala vinho e quando vai saindo, esbarra no moço de short e camiseta que entra procurando coisas novas. Ele.
Escrito por mariana às 10:50
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Conto (Primeira parte) - (ainda sem título)
Chegou exausto do hospital, os plantões acabavam com ele. Entrou com pressa no apartamento, mal tirou a camisa já estava deitado na cama, de olhos fechados. Acordou só cinco horas depois, com o sol batendo forte em seu rosto. Comeu o resto do arroz e do feijão que estavam no tupperware, fritou duas almôndegas e acabou com a fanta sem gás que ocupava espaço demais na porta da geladeira.
De volta ao quarto, alguns livros empilhados na cadeira. Goethe, Érico Veríssimo, Balzac, Eça. Os livros velhos recém adquiridos no sebo dos Jardins. Já tinha dado uma olhada em todos, mas ainda não os tinha catalogado. Ligou o computador, abriu o word e começou a anotar os nomes: Cláudia Teixeira, Luiz Eduardo Félix, Roberto Silva, Bruno Liz. Nenhum repetido, claro. Guardou todos na estante, pegou o Garrett que estava lendo e foi até a sala. Página 23, sofá, luminária verde.
Adriano chegou no fim da tarde, cozinhou para os dois e saiu em seguida para encontrar a noiva. Ele voltou pro quarto, pausa em Garrett, ía começar o Balzac quando lembrou de fazer supermercado. Melhor hoje mesmo, amanhã aproveito o dia de folga.
Carne, macarrão, maçã, tomate, alface, tang, arroz e feijão, frango congelado, pizza semi-pronta. Olhou para a estante de pocket books, mas desistiu, aqueles eram novos, não tinham graça. Chegou quase meia noite em casa. Guardou as compras e buscou o Balzac. Dormiu depois de cinco páginas.
Escrito por mariana às 15:54
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Uma obra ou o destino humano?
Era daquele tipo de gente que acha que tem de sofrer para crescer, sofrer para aprender, sofrer para viver. O mundo, afinal, não existia sem sofrimento. E preferia sofrer a viver sem sentir.
Qual não foi sua surpresa ao se deparar com facilidades. A garota mais quente achava que ele era interessante, a música que ele ouvia virava hit dos colegas, sua letra torta escorregando pela linha virou genialidade. Tanto sofrimento, puxa, esse é realmente alguém que se questiona.
Sofrer virou sinônimo de responsabilidade. Todos queriam sofrer.
Então quando virou moda chorar amarguras criadas, ele sofreu por ter feito as pessoas infelizes.
Escrito por mariana às 01:26
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olha a tela cheia de nomes, o seu não está lá. uma lágrima corre salgada e marca o caminho de insucessos. sempre o que não nasceu para isso.
Escrito por mariana às 19:58
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Pegou casaco e mochila, a maçã menos amassada da geladeira, trancou a porta de casa e encarou o frio de fumaça da manhã. Enquanto esperava o ônibus, cogitou jogar-se no meio da rua. E se eu esperasse o ônibus chegar perto e corresse em sua direção? Acabaria com os problemas de dinheiro, incompreensão, recusa... Com todos os problemas. O ônibus chegou, enfim. Ele subiu as escadas, entregou as moedinhas e se sentou na última poltrona, a mais escondida. Covarde.
***
Desceu e foi andando em direção à banca. Precisava atravessar a rua mas os carros não paravam. Decidiu ir se distanciando da calçada, chegando perto daquele fluxo incessante para talvez ser absorvido e levado por ele. Uma buzina. Sai da frente, quer morrer? O susto e voltou para a calçada. Andou até a faixa de pedestres, esperou os carros pararem, observando com olhos quadrados e ansiosos aqueles que ocuparam suas ruas. Atravessou. Covarde.
***
A manchete dizia que não-sei-quantos morrem no trânsito todo ano, todo mês, toda semana, todo dia, toda hora. Quantos desses quiseram se tornar apenas esses números? Quantos daqueles tiveram a coragem que ele não tinha? Era isso, a solução era ser número.
***
Trabalha na sala 23B, é o funcionário 4.569 da companhia de auto-estradas, come 2 vezes ao dia, seu RG é 35.485.256-8, seu CEP é 02.483-379, mora no quarto 43 do prédio 9909.
Escrito por mariana às 17:39
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Fróidi explica
A caixa se abre de repente. Nove miniaturas de vampiros se soerguem, organizadas em três fileiras. Só a do meio se mantém estática - as outras seis estátuas se desmancham no ar em pó.
-Então você sabia que, entre românticos, realistas e parnasianos, os verdadeiros vampiros são os do Realismo.- Conde Dracula comentando minha perspicácia.
Escrito por mariana às 20:32
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Vice de merda - ou - Time que comemora derrota não merece ganhar nunca
O juiz apita o final do jogo, claro que o Paulista não ganhou. Fim dos rojões que estavam sendo explodidos não por causa dos gols- que não aconteceram-, mas porque torcedor, quando perde esperança, vai explodindo os rojões para que eles não se acumulem no fundo da garagem. Então começa a tocar Charlie Brown Junior. O cd inteiro. Imaginava que o som não chegaria até o décimo quinto andar - pobre ilusão. Depois de uma hora de música ruim tocando sem cessar - nem para a pausa da água do cantor do cd-, chega a comitiva que se deslocara para São Paulo. Infelizmente Jundiaí fica a uma curta hora de distância. Sirenes, cornetas, batuques, buzinaço. Cogitava a possibilidade de estar vivendo em um universo paralelo, em que o Paulista tinha sim ganhado do São Caetano. Só na minha TV que não.
Escrito por mariana às 23:02
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