Republicação (parte II)
aqui em volta: livro marcado pelo uso, microfone acoplado ao computador, potinho com restos do que foi morango com açúcar, pinça, embalagem vazia de prestígio, dois livros começados, mochila aberta derrubando óculos e papéis pela boca de zíper, porta retrato com uma mariana feliz tomando banho de cachoeira com os olhos fechados, celular, relógio, um par de brincos, caneta e papel, perfume, base do telefone sem fio sem o telefone. aqui dentro: nó. tripas entrelaçadas, coração palpitante, estômago sem fim - um abismo onde de repente faz frio, de repente aparecem vespas (que uma vez foram borboletas), de repente quer virar montanha e sair pra fora. poros que vazam, torneira insistente que se faz escapar pelos olhos ou pelas mãos - sempre suadas e frias. confusão, muita confusão: uma profusão de líquidos, sangue... sangue... convulsão aqui de dentro, rebelião do coração por demais retalhado.
Escrito por mariana às 12:15
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Republicação (parte I)
Olhei no espelho e vi uma garota de 20 anos, cabelos compridos, jaqueta jeans, traços não tão grotescos assim, vi uma garota se olhando e procurando a si mesma, tentando se encontrar, pedir desculpas a si mesma. Vi uma garota clichê, uma adolescente típica procurando em si algum orgulho, alguma diferença, algum perdão, alguma esperança. E desviei o olhar, com pena de mim mesma por ser tão pequena e melancólica, com vergonha de mim mesma por sentir pena de alguém que é feliz e acha que não.
Aqui cabe a foto não tirada de uma mariana assustada se olhando no espelho, arrumando o cabelo com os dedos finos e se concentrando nas unhas vermelhas que ela inventou para si mesma que pareciam unhas de uma mulher independente. O contraste de seu rosto de quase criança, de suas preocupações tão infantis, e de unhas vermelhas que revelariam indiferença ao que os outros pensam, independência, segurança, certezas.
(Isso é texto antigo republicado porque ainda não voltei a escrever)
Escrito por mariana às 12:13
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*crise produtiva*
hoje não tem conto nem verso
quer dizer, choro nem vela.
Escrito por mariana às 19:26
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To be continued...
Não se enxugar direito com a toalha para que a roupa seque o corpo; coberta bem presa no pé da cama e lisa; não deixar o livro marcado, denunciando que já foi manuseado; fechar todos os armários e gavetas antes de dormir; odiar fios de cabelo que entram de leve na orelha e etiquetas das calcinhas; deixar uma luz acesa no quarto e acordar a noite toda para ver se ela ainda está acesa; ritual no banheiro: escovar os dentes, passar fio denal, listerine, lavar o rosto com sabão neutro, passar um líquido que limpa os poros e creme anti-rugas. No banho: lavar a cabeça e só depois o corpo, senão a sujeira escorre; estalar a mesma quantidade de vezes os dedos das mãos, para que uns não engrossem mais que os outros; passar a mão pelo corpo depois de fechar a torneira para tirar o excesso d'água; só dormir de meia; colar post-its pela casa com compromissos que ele jamais esqueceria só para parecer organizado; deixar o pip da televisão aberto, mesmo que não esteja passando nada de interessante no quadradinho; passar desodorante duas vezes, só para garantir; levar o leite da xícara à boca com uma colherzinha; costura da meia que incomoda; ler jornais e revistas de trás para diante; vestir as melhores roupas e jóias para levar o cão ao passeio; odiar barulhos repetidos em ritmo uniforme; nervoso quando o dedinho do pé sobe no dedo do lado; odeia que lixem seu pé; porta mal fechada que faz barulho com o vento; barra da calça que, em vez de cobrir o tênis, fica entre este e o tornozelo; blusa com marca de desodorante; deixar o melhor da comida para o fim: a cobertura do bolo, o pedaço de almôndega com mais molho; colocar mais bebida no copo, nem se for um dedo a mais, quando ele ainda não está vazio, calculando a sede do próximo gole; digitar as teclas do telefone pensando em uma música com os números; coberta solta para pôr os pés no meio, embrulhados; colocar mais que o necessário na bolsa, para ela parecer necessariamente cheia; tirar os brincos e o relógio assim que entra em casa; calça que faz prega na região da virilha; não sair de casa sem brincos; tomar um copo d'água antes de dormir; apagar com borracha a palavra que não ficou escrita com uma letra bonita; jogar água no pára-brisas para limpar uma sujeira inexistente; só dormir totalmente no escuro; nunca tirar o relógio; trancar a porta do carro quatro vezes e conferir mais três se ela está trancada; inventar detalhes nas histórias que conta...
Escrito por mariana às 12:32
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