Na porta da locadora, há quarenta minutos, lendo a revistinha de lançamentos e esperando chegar o filme que ele nunca consegue levar para casa. Passa a moça segurando o cachorrinho pela coleira rosa choque. Linda, cabelo amarelo meio curto, saia jeans, all star, blusa de algodão, manga comprida. Segura pra mim, preciso devolver umas fitas?... Tá. Claro. Ela entra e ele fica segurando o vira-latinha marrom. Passa um senhor com o filme que ele quer, entra na loja. Preciso entrar, preciso entrar... Maldito cachorro. Maldito. Vem logo, moça, vem logo. Vai, vai... Rápido... Saem a moça e um casal, ela agradece, ele nem olha se o sorriso é bonito ou não, corre para o atendente que desvia os olhos sem graça. Se você correr pode tentar convencer o casal a desistir da sua fita...
Escrito por mariana às 14:00
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Perna para fora, equilibra o corpo no salto e empilha na mão esquerda o celular, os documentos xerocados juntos em um clipe e a chave. Tranca o carro, alça da mochila entre os dentes, aperta o botão do alarme – o centro é um perigo.
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Escrito por mariana às 00:20
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LÁBIOS
...
(RESPIRO VOCÊ)
Escrito por mariana às 18:50
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Subiu correndo as escadas de emergência, abriu a porta corta-fogo e a de vidro. Desviou das toalhas estendidas no chão, as moças de biquini em cima delas...
Escalou o muro que impedia as crianças de verem o outro lado, o vazio coberto pelo azul.
Respirou fundo. Naquela altura o vento era mais forte, balançava a camisetinha de algodão que ela vestia. O ar quase ensurdecedor. Quando olharam para trás e viram a moça meio inclinada para o ..., de olhos fechados, braços grudados ao corpo, entraram em desespero. Não pula. Não pula.
Ela existia separado, gritava para si mesma.
Tomou mais ar. Abriu os olhos, viu o infinito. Todos ouviram o grito.
Desceu do muro, começou a rir. Alívio.
Escrito por mariana às 00:09
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"Pírulas"
No ônibus: - E aí, suas bactérias cresceram?
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Do Fran's café, andando pela avenida, a árvore (grande, raízes rebeladas contra a calçada) que fica no fim da bifurcação do caminho para casa está a 373 passos. O trajeto que eu pensava ser o mais curto, pela ruazinha residencial sem carros, ônibus ou joggers, consome 396 passos.
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O melhor adiamento é tomar banho no escuro, com duas ou três velas (mal) iluminando tudo, incenso, música, xampu de flores, esponja vegetal e sabonete líquido.
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Cachorros peludinhos correndo em direção ao dono são lindos.
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Jamais entrevistem pessoas que pensam. Conselho de quem não sabe mais separar jornalismo de literatura, e tudo isso da vida particular.
Escrito por mariana às 21:07
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Às quinze para as sete acordou sem despertador nem nada, era só o sonho que tinha chegado ao fim, o letreiro com os créditos já tinha passado e não havia mais o que fazer de olhos fechados. Levou as mãos direto para o rosto, tirou o sono solidificado dos cílios e se espreguiçou. Não tinha relógio no quarto, imaginou ser tarde por estar tão descansada.
Levantou e abriu a janela, ar com cheiro e fresco. O sol ainda estava fraquinho, nossa, que horas são? Procurou o celular dentro da gaveta, ligou, nem sete horas. O que as pessoas fazem quando acordam cedo?
Foi tirando o pijama no caminho para a banheira. Levou o rádio para cima da pia, cd da Ana Carolina. Quem sabe isso passa sendo eu tão inconstante. Meia hora de imersão, esfregando a esponja diversas vezes em cada braço, cada perna, a barriga, os seios... Cantava apenas alguns versos, quase feliz, quase esquecendo do que ainda existia.
Deixou o cabelo molhado para secar com o vento, se trocou na frente da janela, nua para as montanhas e as árvores. Não lembrava que aqui era tão bonito. Calça de moletom, regata verde, tênis sem meia. Desceu as escadas que isolavam seu quarto do resto da casa e encontrou a bagunça do jantar da noite anterior na mesa. Nada na geladeira. Tirou do armário chá light com pêssego, misturou o pozinho e encheu um copo grande. Bolacha água e sal.
Sentada na calçada. O jornal do vizinho acumulado diante da porta, devia estar viajando. Hm, que mal há? Na capa, Brizola. Fashion Week, mortos e feridos, Ronaldo e Cicarelli, polícia... Não vale a pena.
Encostou no pilar da garagem, adormeceu. De volta para a realidade.
Escrito por mariana às 10:49
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Saía todo fim de semana para pescar e sempre voltava sem nada. Tinha dó dos bichinhos, tão gelados, viscosos, só faltava terem boca toda estrupiada. Por isso tirava a fisga do anzol antes de colocar a minhoca - e viva, que é mais saborosa - e passava a tarde de sábado segurando o bambu, coçando a nuca, pernas esticadas e calcanhar na água, se era verão. Quando o sol começava a desaparecer, levantava, tirava os carrapichos que tinham grudado e ía para casa, mais calmo.
Escrito por mariana às 00:10
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