suco


"Quem poderia fotografar, registrar, tatear o instante em que algo se rompe entre duas pessoas? Quando aconteceu? De noite, enquanto dormíamos? No almoço, enquanto comíamos? [...] O que posso fazer agora? Que refletor devo acender para encontrar nessa escuridão, nessa trama, aquele momento único, aquele milésimo de segundo em que algo cessa entre duas pessoas?"
Trecho do romance "Divórcio em Buda", do húngaro Sándor Márai. Tirado do blog do Guilherme, www.oguardalivros.blogger.com.br

-Eu lembro bem, foi quando você recebeu aquele telefonema. Nós estávamos juntos na sala, vendo Jornal Nacional, e o telefone tocou. Você estava de sobressalto havia uma semana, mas pensava que eu não percebia. Quando tocou, você resmungou algumas palavras, algo que mostrasse para mim que estava irritada, mas correu e atendeu antes do terceiro toque. Você estava ansiosa. Apontou para a televisão e foi para o quarto, onde eu não podia te ouvir. Não consegui mais prestar atenção nas notícias, mas também não escutava o que você estava conversando. Quando voltou, disse que era a Vera. Queria te encontrar no outro dia. Só depois eu soube que a Vera estava viajando.

-A Carla era bastante nervosa, eu estava do lado dela quando os problemas estouravam e, nossa, ainda bem que estava, ou ela, sei lá, surtava. Como no dia em que ela descobriu que o namorado mentia para ela. Não era nada grave, não chegava a ser traição, mas mentia. Antes o namorado também estava do lado dela, ele segurava uma barra maior que a minha. A gente saía juntos, nós três. Uma vez ela foi no banheiro, porque estava irritada com o shoyo que molhou a blusa dela, e o nabo que o garçom tinha trazido não estava adiantando. Ficamos nós dois na mesa. Ele começou a reclamar dela. Foi aí que eu também falei. Ele me entendia.

-Sempre muito legal comigo, a Marisa. A gente se divertia pra caramba, ela era inteligente... Só que faltava, sabe? Ela não era gostosa. Não era um grande problema, afinal, mulher gostosa mesmo não ía dar bola pra mim. Mas ela tinha peitos grandes demais. Quando eu conto isso para as pessoas, elas riem de mim, afinal, é bom ter mulher com peito grande. Mas os dela eram enormes. A gente foi para a praia no Carnaval, e eu conheci a prima dela, coitada, moça doente. Tinha acabado de se recuperar de anorexia. Peitinhos desse tamanhinho. Linda.

 



Escrito por mariana às 19:26
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Nas aulas de língua estrangeira era assim, precisava usar com freqüência as palavras que aprendia.

Decidiu eleger a palavra do dia e encaixa-lá nas conversas.

Hoje(abre o dicionário, fecha os olhos e aponta para uma), gaifona.

gaifona s.f gesticulação cômica; gaifonice, macaquice, trejeito; visagem, careta



Escrito por mariana às 13:18
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Amélie Poulain

Uma moça de camiseta verde limão, andando pelo supermercado com um carrinho lotado de flores coloridas.
Vontade de sorrir para ela.



Escrito por mariana às 16:55
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Demorou para levantar, ainda era cedo. Colocou calça de moletom e a blusa mais confortável. Suco de uva e bolachinhas, sentou na frente do computador. Pagou as contas do banco, mandou emails para os amigo distantes, cartões virtuais.

Amarrou rabo de cavalo bem alto, lavou o rosto mais uma vez e foi para a rua. Correu três quilômetros, parou na floricultura. Girassóis ou lírios? Lírios, menos pomposos.

Tomou banho, almoçou. Filme deitada no sofá, a risada gostosa de Charlotte-Scarlett, chocolate, incenso de mel.

 

Tudo que escrevo parece, para mim, um pequeno laboratório de criação de personagens. Muitos sem conflito no momento em que aparecem. Penso que são fotos, às vezes. Todos curtos. Continuo porque me faz bem, mas não vejo grande valor.



Escrito por mariana às 10:20
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Sentou no piano para exercícios. Fazia dois dias que ela tinha ido. Não conseguiu tocar no ritmo, esqueceu algumas notas. Jogou longe o caderno de partituras. Passou a mão no rosto, barba crescida.

Levantou e buscou um copo de leite. Deixou perto do teclado, cruzou ali os braços e se apoiou neles. Tentava chorar, imaginando suas próximas semanas.

Quis ligar mesmo sabendo atrapalhar o sono dela, que estava em outro fuso horário. Discou os primeiros números, depois desistiu. Não ía adiantar descobrir como ela estava. E seria pior se estivesse feliz.



Escrito por mariana às 18:13
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O tempo não pára

Cachecol por cima da malha, enroscando de leve no brinco comprido. Andou dois quarteirões e chegou na avenida principal, mais duas ruas e estava na praça. Tinha lavado o cabelo para tirar o cheiro de óleo do restaurante da mãe - passara a tarde ajudando porque tinham vindo muitos turistas apesar do frio.
Deu uma volta na praça, comprou uma latinha de cerveja no bar mais cheio, sentou em um banco. Via as pessoas passarem. Carros com neon, alguns com música alta. Moças rebolando. Garotos aprendendo a fumar. Menina de coturno, pulseira de espetos, lápis forte nos olhos. Casais procurando o canto menos iluminado.
Nada daquilo importava. No entanto, era viver.

Escrito por mariana às 21:59
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Suco? É, suco. o significante mais próximo do significado. Pense no som. Pense no suco caindo. De uva, de preferência. Suco. Suco. Suco.



Mariana Delfini, quase jornalista, gosta bastante de escrever.







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