Bastonete
Tanto que, no domingo, comprou uma manteiga de cacau e desde então a protegia no bolso antes de sair.
Não tinha elegância nem ocupava as mãos, além de cheirar amargo. Também não esquentava no frio. E a aplicação era um tanto vergonhosa – há sete ou oito anos se conformara com não saber fazer bico, e não caía bem para um moço daquele tamanho arreganhar grande os lábios e passar o batom em cada rugosidade.
Mas notou progressos, a boca estava macia e com brilho, até. No entanto, elas voltaram, as aftas. Era esse seu maior arrependimento, não podia com aftas. Quando, aos quinze, leu no jornal que cigarro deixava as células da mucosa da boca com mais queratina, passou a achar razoável o preço da possibilidade de um câncer. Aos dezessete não ia mais à farmácia e gastava cada moedinha do anestésico com prazer em bastonetes de tabaco.
Foram dez anos de tragadas intensas: o desenho dos aros de fumaça, a certeza de destruir aftas em potencial. Elas incomodavam e ele começou a fumar.
Encontrava os não-fumantes que reclamavam daquilo de que os não-fumantes sempre reclamam. Tão normal que sem importância. Com os retoques se acostumaram, batom religiosamente sete vezes ao dia: depois de escovar os dentes, ao levantar da cama e se deitar de novo; no intervalo do café de manhã e à tarde; indo para o trabalho e voltando de lá; depois da sobremesa do almoço.
A Regina que tinha notado mudança na cor da boca dele. Não era cor, foram ver, era textura. Ela quis dar um beijo e se contraiu toda, olhos bem fechados, rosto de azedo. Capa de queratina. Capa não, casca era o que parecia. Já bastante áspera, um quase couro. Foi na sexta. Na outra semana ele tinha a boca melada de cacau.
Deixou de ser engraçado, nem caricato mais era; se tornou um estorvo. Regina não suportava. Enquanto durou a lembrança da casca queratinosa, o batom era um milagre. Virou capricho pouco mais tarde quando os resquícios daquele tempo eram uma boca levemente ressecada. Logo não era mais capricho, e Regina odeia manias.
Não só a Regina, ele descobriu. No trabalho faziam perseguição velada: esconderam a manteiga de cacau muitas vezes, outro dia os homens combinaram de ir de boca pintada de cor de rosa, uma grande piada. Se esquecesse no carro ia buscar tão logo se dava conta, fosse no meio duma reunião, quando estava de pijama ou durante o almoço. Uma grande piada. Chamaram, escondido dele, de filho de cacau. Depois só filho.
Regina comprou lenços de papel. Guardava na bolsa e usava para tirar o excesso de batom dele quando se encontravam. Daí beijava de cumprimento. Por três semanas ele tentou se livrar daquilo, só conseguiu quando ela usou chantagem. Passou a usar a língua, então. E os lábios ficaram vermelhos e gastaram-se. No lugar de boca, só aftas. Precisou se reconstruir, voltou a fumar.
Escrito por mariana às 10:07
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